VIVER EM DIVERSIDADE  

Haroldo Reimer

 

Gênesis 11,1-9 é um lindo texto, em estrutura mítica, que aborda o problema do domínio através da força e da cultura. Ambas as formas de dominação estão simbolizadas na “torre de Babel”. É um texto que se pode ler muito bem para dentro das tendências modernas de dominação mundial através da globalização da economia e da vida. Também hoje há uma busca desenfreada através do controle dos mercados para ter hegemonia e para “tornar grande o nome”. Gênesis 11,1-9 é um texto que deve ser lido como resistência à toda forma de dominação cultural, política e econômica.

Nem sempre, porém, esse texto é lido como texto de resistência. Em boa medida, estamos acostumados a entender o texto de forma negativa, como contraponto ao texto que fala do Pentecostes no Livro de Atos dos Apóstolos. É que na liturgia de várias igrejas, esses dois textos costumam ser lidos no mesmo dia. Gênesis 11 seria a folha negativa para o acontecimento positivo de Pentecostes. Isso, contudo, deve ser visto criticamente.

O texto inicia fazendo uma constatação genérica: “Em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar” (v. 1). A seguir, no v. 2, vincula-se essa uniformidade lingüística e cultural com um projeto de edificação na planície. Essa planície leva o nome de “Senaar”, no v. 2, e “Babel”, no v. 9. Com isso, se remete para o ambiente babilônico, mas a experiência de construções gigantescas também é uma experiência nas terras de Israel.

O v. 3 se detém em descrever as técnicas “modernas” de construção naquela época: tijolos queimados e betume. São exemplos da tecnologia avançada utilizada especialmente na construção de cidades-estado nas planícies da terra de Canaã. Não se trata do modo israelita-camponês de fazer edificações. Tem a ver com projetos faraônicos. A própria memória hebraica indica que no tempo de escravidão no Egito, os hebreus eram obrigados a fabricar tijolos para os projetos dos governantes.

Gênesis 11,4 leva a parte inicial do texto ao seu ponto alto. Desvenda os interesses dos construtores: “Vinde e edifiquemos para nós uma cidade, e uma torre, cujo topo chegue aos céus, e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra”.

O projeto em questão é a edificação da cidade e torre. Essa é a questão central de Gênesis 11,1-9: a cidade e a torre. No texto se diz: a cidade será “para nós”. Quem é este “nós” de que se fala no texto? Afirma-se ainda que a torre deverá chegar até os céus. Tudo será para tornar célebre o “nosso nome”. Quem é que expressa o seu projeto dessa forma?

Tornar célebre um nome tem a ver com expansão de interesses. Trata-se sobretudo de grandes projetos que na Antigüidade estavam diretamente ligados com a realeza, com os mandatários oficiais. A construção de cidade e torre indica para um projeto de domínio urbano-estatal. Podemos até querer interpretar o “nós” no texto como indicação para o pecado humano da dominação. Mas isso não acerta bem com o provável sentido original do texto. A cidade e a torre são projetos de dominação relacionados com reis e faraós. Evidenciam tonalidade militarista do projeto. A glória pretendida não é a do povo, mas a glória dos dominantes!

Quando o texto termina de enunciar esses projetos triunfalistas, dá-se uma “virada” no texto. A partir do v. 5, o Deus Iahveh aparece em cena. Aparece como alguém que vem para inspecionar. Ele continuará sendo o protagonista até o final da narrativa.

A menção da aparição do Deus Iahveh já traz o gosto de uma ironia. Porque ele teve que “descer” dos céus para “ver” ou “enxergar” o que estava sendo construído. Aos olhos humanos, aquele projeto de cidade e torre era grandioso; para Deus, contudo, o projeto militar-imperialista é miseravelmente pequeno e insignificante. Nem a torre “até os céus” consegue chegar perto de Deus.

Havendo descido, Deus diz após sua inspeção crítica: “O povo é um, e todos têm a mesma linguagem” (v. 6). Aquilo que deveria ser motivo de honra e glória, isto é, a unidade, justamente isto é avaliado negativamente. Aqui parece não se tratar de uma unidade nacionalista, conquistada à base de patriotismo e luta, o que é admirável, louvável e necessário. Parece tratar-se da uniformidade imposta pelos dominadores. “O povo é um” quer dizer: o povo está subjugado e dominado como na disciplina militar. Daí advém a negatividade do juízo divino. A dominação nega a diversidade da vida.

Esta unidade-uniformidade é avaliada negativamente não somente em si, mas também como pressuposto e possibilidade para outros projetos. Por isso, o texto ainda acrescenta na fala de Deus: “Isso é apenas o começo: agora não haverá restrição para tudo o que eles intentam fazer” (v. 6). A unidade imposta fragiliza o povo. Permite múltiplos desmandos.

Por isso, Deus, como que falando no plural, convoca para “descer” e “confundir” a linguagem. A diversidade cultural e a pluralidade na linguagem são apresentadas como portadoras de projetos de vida. Os protagonistas do projeto de uniformidade através do domínio na cidade e na torre são dispersos. Aqui, a dispersão e a confusão de línguas são um evento positivo. Trata-se de resistência!

Nas palavras desse texto, em estrutura mítica, estão embaralhadas experiências diferentes. Na base do texto está primeiramente um projeto de dominação através da língua, da cidade, do controle pela torre. Isso bem pode ser expressão do domínio dos assírios, por exemplo, na época dos reis sargonidas (séculos VIII e VII a.C.). Mas também pode ser expressão de pretensões dos faraós egípcios ou dos reis de Canaã e de Israel. De qualquer forma se trata de projeto de dominação.

Mas essa base de dominação sofreu uma releitura crítica. Quem fez essa releitura fez uma tremenda gozação sobre o projeto dos dominadores. Essa revisão crítica pode ter brotado a partir das memórias e das experiências de israelitas camponeses e aldeãos, constantemente dominados e assolados pelas exigências da capital-cidade-Estado, seja pela entrega de tributos, seja pela reivindicação de trabalhos forçados em obras públicas. Tais práticas dos dominadores são bem denunciados por alguns profetas (Mq 3,3-4.10; Jr 22,13-19).

Teologicamente, essa releitura do projeto de dominação pode ter acontecido nas imediações da profecia radical do século VIII a.C. ou nos caminhos desta. Iahveh é apresentado aqui como um Deus antagônico à “cidade e à torre”. Pelo reverso, se entende que este Deus Iahveh está comprometido com o mundo diversificado da roça e do interior, com seus jeitos próprios na linguagem e na cultura. Visto assim, o texto de Gênesis 11,1-9 é um “conto anticitadino e antimilitarista”, como bem o expressou o professor Milton Schwantes.

O projeto dos articuladores do texto é a memória e o vislumbre da vida na diversidade. As diferenças de linguagem e cultura dificultam a dominação; favorecem a resistência contra um projeto globalizador e opressor. Funcionam como um freio para projetos totalitaristas. Neste sentido, Gênesis 11,1-9 é uma defesa da diversidade. A partir da ótica dos dominados, a dispersão e a “confusão” da linguagem não são experimentadas como castigo, mas como possibilidades de vida. A vida é multicolorida; a vida está na multimistura; a vida está nos pequenos espaços culturais; a vida está na diversidade de culturas, a vida está nas microvidas dos minifúndios e não na monotonia do latifúndio; a vida está onde pessoas podem viver a sua vida com sentido e dignidade. Vida existe com mais plenitude na diversidade! É disso que trata esse lindo texto de Gênesis 11,1-9.

 

 

[Publicado originalmente em: REIMER, Haroldo; CEBI-GO. Gênesis. Casa comum: espaço de vida, cuidado e felicidade. São Leopoldo: Cebi, 2007, p. 48-51]