DESTRUIR E RECOMEÇAR SEM AMEAÇA  

Haroldo Reimer

 

Em Gênesis 6 a 9 conta-se a história de destruição da Criação de Deus e a história de uma nova criação. Pelo menos em seus traços principais essa história de Noé ou a história do dilúvio é conhecida.

A narrativa está construída no jeito típico dos antigos hebreus contarem suas histórias. A história começa e chega ao seu ponto alto na metade da narrativa, desenrolando-se depois para o final, onde são colocados alguns acentos próprios. É o que se costuma chamar de “estrutura concêntrica”, isto é, os conteúdos são alocados em torno de um centro. É como numa cebola cortada ao meio, onde as diferentes camadas da cebola estão ajeitadas em torno do broto central. Na história de Gênesis 6 a 9, os traços principais podem ser assim delineados.

Há duas justificativas iniciais para que Deus se decida por um dilúvio. Primeiro, em Gênesis 6,1-4 fala-se de uma admirável, porém condenável relação dos “filhos de Deus” com as “filhas dos homens”. Desta relação teriam nascido os “gigantes”. É um conteúdo estranho; é difícil saber exatamente a que se refere. Em segundo lugar, indica-se que a “maldade dos homens se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau o desígnio de seu coração” (Gênesis 6,5). Por isso, Deus decide enviar o dilúvio e acabar com tudo o que havia criado. Antes de executar este plano de destruição, Deus escolhe um homem e sua família para com esse núcleo dar início a uma nova criação. Esse personagem é Noé.

Não há muitas indicações sobre os motivos da escolha de Noé. O texto simplesmente indica que era “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos” e que “andava com Deus” (6,9). Isso são suas qualidades. Com esse homem Deus decide fazer uma aliança. Nesta aliança, cabe a Noé construir uma arca e recolher casais de exemplares das mais variadas espécies e abrigá-los dentro da arca quando vierem as chuvas do dilúvio. Os passos para a vinda do dilúvio são narrados em Gênesis 6,5-22.

Em Gênesis 7,1-16 narra-se, então, a entrada de Noé na arca por ele construída. Junto com ele e sua família entram pares de animais. No texto parece haver uma junção de duas tradições, pois em algumas partes se fala de um casal de animais e, em outras, de sete casais de animais. Assim, de todo ser que necessita respirar para viver existiriam exemplares dentro da arca. Depois, a porta foi fechada.

Em Gênesis 7,17-24 está o centro da história. É o miolo, o coração da narrativa. Aqui a história do dilúvio chega ao seu ápice, ao seu ponto mais elevado. Aí se narra a vinda do dilúvio com a descrição de que “pereceu toda carne que se movia sobre a terra... tudo o que tinha fôlego de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu” (v. 21-22). “Ficou somente Noé e os que com ele estavam na arca” (v. 23).

A partir deste ponto, isto é, da indicação da destruição de todo ser vivente que necessita respirar para viver, a história se dirige para o final. Facilmente se podem imaginar os passos: pára de chover, as águas baixam, a arca pousa em terra firme, há o envio de pássaros para verificar se há vegetação e, finalmente, Noé e sua família saem da arca. Isso se pode ler em Gênesis 8,1-19, que é o contraponto de 7,1-16. O primeiro passo deste Noé que sai da arca é montar um altar e oferecer um sacrifício para Deus. Assim, essa história quer passar a mensagem de que a “nova criação” já começa com a adoração ao Deus Iahveh!

Em Gênesis 8,20 a 9,17 encontra-se o contraponto de 6,5-22. Se em 6,5 se indicava para a maldade do coração humano como motivo para a vinda do dilúvio, em 8,21 o texto apresenta um solene juramento de Deus, dizendo que “não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade”. Aqui há uma indicação muito importante: aquilo que era motivo para a destruição do dilúvio, continua a valer após o dilúvio como condição humana. Há, porém, uma grande diferença! Desaparece a ameaça de um novo dilúvio! A nova criação precisa conviver com o fato de que o ser humano é um poço de contradições.

Esse elemento da contradição humana e sua homologação por Deus é continuada em Gênesis 9,1-19, nas chamadas “leis noádicas”, isto é, as leis relativas a Noé. Nesse trecho há uma junção típica de leis e uma comemoração litúrgica de pacto ou aliança. As “leis noádicas” repetem a ordem do “crescei e multiplicai-vos” (9,1; 9,7), agregando a indicação de que o adam, isto é, o ser humano, será um elemento do qual saem “pavor e medo” sobre os animais. Aos humanos agora, dentro do modo sincrônico da apresentação bíblica, é facultado comer carne, com ressalva de que esta não pode conter sangue. Também o derramamento de sangue entre os humanos está catalogado como elemento da nova realidade, sendo liberada a vingança de sangue derramado (9,5).

Com esse Noé, representante do novo gênero humano, Deus celebra uma aliança. Nesta aliança é feita (novamente) a promessa de que nunca mais a terra será destruída por um dilúvio (9,15). O sinal desta aliança é sabidamente o arco-íris.

Com isso, a narrativa poderia chegar ao fim. Mas segue-se ainda um trecho em que Noé pronuncia maldições e bênçãos (9,20-29). A cena é extremamente interessante. Noé passou a ser lavrador e plantou uma vinha. Nessa atividade, se embriaga e se põe nu na sua tenda. Deste modo é visto por Cam, um dos seus filhos, o qual conta a coisa adiante aos irmãos. Estes cobrem o pai. “Despertado do seu vinho”, Noé amaldiçoa seu filho Cam, que viria a ser pai de Canaã. Os outros dois filhos são merecedores de bênçãos.

Toda essa narrativa do dilúvio está organizada em linguagem mitológica, como é típico em todo o bloco de Gênesis 1 a 11. O que se descreve na história é um acontecimento imaginário. Esse acontecimento pode ter relação com alguma possível grande inundação na Antigüidade. Tal inundação pode até ter servido como referencial para construir elementos da história. Mas essa suposta base histórica não é decisiva para entender o relato mítico. Também a destruição e a recriação de cidades e reinos eram entendidos como um “dilúvio” e a reconstrução como “(nova) criação”. Assim, por trás da história mítica do dilúvio pode estar refletida, na perspectiva dos hebreus, também a experiência da destruição e da recriação de Jerusalém. Lembramos que mitos são narrativas construídas, cuja história se passa no passado longínquo, para dar respostas e orientações no presente (e no futuro) daqueles que elaboram essa história.

Há um outro elemento que deve ser lembrado quanto à história de Gênesis 6 a 9. A pesquisa bíblica tem demonstrado amplamente que esta história tem paralelos extrabíblicos, que provavelmente até serviram de inspiração aos hebreus para comporem esse relato. Na Babilônia antiga era conhecido o poema de Gilgamesh, que conta uma história muito parecida a de Noé. Lá o nome do personagem principal é diferente, mas o enredo é similar. Há também a construção de uma arca a partir do desmanche de uma casa; há os animais, o dilúvio, etc. Mas o final é diferente! Lá o dilúvio permanece como uma ameaça constante. Quem não agir conforme a vontade dos deuses deve contar com a possibilidade de um novo dilúvio.

Na história bíblica é diferente. O próprio Deus retira a ameaça de um novo dilúvio. Isso pode ter significado que o Deus Iahveh não mais pretende destruir Jerusalém e Judá como havia feito, sendo isto previamente anunciado pelos profetas. Tal destruição não mais viria a ocorrer. Também a “nova criação” não pretende ser mais um espaço de “pureza”, mas o espaço das contradições humanas e sociais. Na perspectiva bíblica, esse jeito de ser da nova criação necessariamente vai precisar da orientação de leis, normas e mandamentos. Isso é o que o relato bíblico vai apresentar mais tarde com a chamada revelação das leis do Sinai (Êxodo 20-24).

Como narrativa em estrutura mitológica, a história de Gênesis 6 a 9 é aberta a várias leituras e releituras. Uma releitura possível é a de entender a história em sentido ecológico. Nesta perspectiva, Noé atua como um ambientalista preocupado em demarcar “áreas de preservação ambiental”, simbolizadas na arca. Ele vai recolhendo espécimes de animais, constituindo, assim, espaços de preservação. Assim relido, o texto projeta novos sentidos.

O que sempre me intriga nesse texto é o silêncio de Noé. É interessante que o personagem principal dessa história não diz nenhuma palavra em todo o transcorrer da narrativa. Não há nenhum aviso, nenhum compartilhar com os vizinhos, nenhuma tentativa de salvar mais alguém além do núcleo familiar próprio. E a primeira vez que Noé abre a boca, ele o faz para amaldiçoar um dos filhos, que representa Canaã, e dar uma bênção aos outros dois filhos. Isso é um detalhe que ainda necessita de maiores esclarecimentos.

 

 

[Publicado originalmente em: REIMER, Haroldo; CEBI-GO. Gênesis. Casa comum: espaço de vida, cuidado e felicidade. São Leopoldo: Cebi, 2007, p. 41-44]