TRANSGRESSÃO E AUTONOMIA  

Haroldo Reimer

 

Gênesis 3 é um texto complicado. É um texto usado e até abusado para criar certas crenças dentro do Cristianismo. A principal crença refere-se à chamada “queda” e ao “pecado original”. Ambas as crenças teológicas teriam sua fundamentação neste texto. Pelo menos assim é afirmado desde o século V d.C., com a decisiva influência de Santo Agostinho.

Nesta linha de leitura, o texto de Gênesis 3 não teria mais muito o que dizer. Restaria apenas ir repetindo, com pequenas variações, o que a dogmática cristã já incorporou ao senso comum. Mas, com isso, a leitura deste texto bíblico chegaria ao seu esgotamento. Não haveria chance de descobrir novos sentidos. E isso, em termos hermenêuticos, não é e não pode ser assim. A leitura de textos é sempre um ato criativo, em que novos sentidos vão sendo vislumbrados e ensaiados a partir de novas experiências e novas perguntas.

Por isso, com temor e tremor, vamos buscar assinalar algumas outras perspectivas, que possam nos ajudar a entender o texto de diferente forma.

O texto de Gênesis 3, assim como os demais capítulos da unidade de Gênesis 1 a 11, também está construído em linguagem mítica. Aliás, junto com o saudoso e memorável biblista argentino Severino Croatto, pode-se dizer que Gênesis 3 é um mito hebraico. Mas do que trata esse texto mítico?

Antes de ver melhor o conteúdo, é necessário recordar algumas questões para melhor entender o assunto. Primeiro há que se ter presente que textos em linguagem mítica atingem mais profundamente o imaginário, ou a alma, das pessoas, porque tais textos trabalham com símbolos e arquétipos. Em segundo lugar, textos míticos são instauradores de sentido; projetam certa construção imaginária de uma realidade originária que se quer que seja assumida como verdadeira, como correta e que seja seguida no tempo presente daqueles que formulam o texto. Mitos querem fazer com que certas ações sejam feitas. Quem formula o texto de um mito quer influenciar os ouvintes ou leitores em determinada direção.

O texto de Gênesis 3 trata de um conflito retroprojetado para as origens nos tempos do jardim de Éden. Gênesis 3 toma o conteúdo do capítulo 2 como pano de fundo. Lembramos que ali a vida dos seres humanos havia sido projetada como sendo muito próxima ao ambiente natural, e que o ser humano (adam) foi feito a partir do húmus da terra (adamah). Essa vivência estaria em sintonia com o próprio Criador. Havia como que harmonia no jardim, como espaço de trabalho e vida.

Gênesis 3 trata da ruptura dessa relação íntima e quase umbilical entre os seres humanos e o Criador. Para isso, os autores introduzem na narrativa um novo personagem, até então não nominalmente presente. Trata-se da serpente. Na verdade, o texto diz que a serpente é o “mais sagaz (...) animal selvático que o Senhor Deus havia feito” (Gênesis 3,1). Portanto, a serpente é um ser que faz parte do universo criado por Deus.

Em Gênesis 3, a serpente é destacada de forma negativa, embora o texto inicie dizendo que é o “animal mais sagaz”. O seu papel negativo deriva do fato de que a serpente é apresentada como personagem, que, em sua conversa com a mulher, questiona ordens dadas pelo Criador. A serpente é apresentada como um ser, ou talvez melhor, como uma grandeza que se interpõe entre o Criador e as criaturas humanas. E essa interferência, na ótica de quem montou o texto, é vista primeiramente como negativa.

No texto, a serpente é um símbolo. Como se sabe pelo ensino dos estudiosos no assunto, símbolos sempre podem ter vários sentidos. Diz-se que símbolos são polissêmicos. Isto quer dizer, que podem ter vários sentidos.

Ora, a serpente no mundo do antigo Oriente podia simbolizar várias coisas. No Egito, era símbolo de poder e sabedoria. A chamada “alta sabedoria” era difundida sob o símbolo da serpente. Mas também os faraós governavam sob o símbolo da serpente. Por isso, alguns biblistas dizem que o problema de Gênesis 3 seria o domínio dos faraós, reproduzido em Israel pelo domínio dos reis. Quem seguisse a serpente estaria assumindo a dominação. Isso é uma leitura possível, mas não a única.

A serpente também era símbolo de sabedoria e fertilidade. Alguns estudiosos até afirmam que na Palestina daquela época havia cultos de fertilidade, nos quais o símbolo da serpente estava presente. Especialmente as mulheres estariam relacionadas com este culto. No texto de Gênesis 3, a serpente é de fato astuta, ou melhor, é expressão de sabedoria. Ela conversa com a mulher sobre coisas que exigem sabedoria e discernimento. Por exemplo, a conversa gira sobre como saber o que é bom para comer e o que pode ajudar no desenvolvimento intelectual. Trava-se um verdadeiro diálogo entre a serpente e a mulher, no qual as ordens do Deus Criador são repassadas e relativizadas e o diálogo leva à ação do comer de um fruto de uma árvore proibida, a chamada “árvore do conhecimento”. A mulher come deste fruto e também dá ao homem para que coma.

No texto, essa relativização (ainda) é vista de forma negativa. Por isso, no texto aparece a figura do Deus criador que interpela o homem e não a mulher. Deus questiona o homem pela ação da mulher, que o envolveu nessa mesma ação de comer do fruto (da sabedoria).

Seguem-se, no texto, indicações de conseqüências diferentes para os três personagens envolvidos na história.

Primeiramente, a serpente é condenada ao que ela naturalmente é: um animal que rasteja sobre o ventre; a isso se acrescenta o fato de uma inimizade entre a mulher e a serpente.

Para a mulher segue a condenação à sua condição usual e natural: multiplicar a prole com sofrimento e dor na gravidez. A indicação de que a mulher terá seu desejo voltado para o homem e este dominará sobre ela (v. 16) é uma instauração mítica de uma ordem pretendida, isto é, o domínio do masculino sobre o feminino e isso dentro de uma polaridade entre masculino e feminino. Nessa projeção estão, em si, excluídas todas as formas de relação entre pessoas que fogem dessa polaridade de masculino-feminino.

Ao homem cabe em si a mais amena das condenações, embora também seja penosa. Este deve se matar trabalhando e ganhar o pão com o suor do seu rosto, em meio a cactus e espinhos (v. 18). Essa é, em si, a sina do agricultor tradicional sobre o solo árido da Palestina. A dimensão transitória de haver sido formado do pó e ao pó voltar (v. 19) também expressa, em si, a condição humana de mortal.

Seguem-se ainda alguns elementos típicos de mitos civilizatórios, como por exemplo, a questão do uso de vestimentas. Se Deus fez uma vestimenta para o primeiro casal, isso significa que os descendentes devem andar vestidos. Também a indicação de que Eva é a mãe de todos os viventes está nesse nível.

O desenlace mais profundo é indicado no final do texto com a expulsão do homem e da mulher do jardim. Antes, porém, há ainda a menção de que, com a ação da transgressão das ordens do Criador, o ser humano se tornou sábio como Deus, conhecedor do bem e do mal (v. 22). Por isso, é lançado fora do jardim para “lavrar a terra de que fora formado”, isto é, para se dedicar à sua função principal de cultivador da terra.

A entrada do jardim é guarnecida por um querubim, com a função de guardar o “caminho da árvore da vida” (v. 24). Essa “árvore da vida” não foi tocada em nenhum momento ao longo da história; ela deve ser diferenciada da “árvore do conhecimento” da qual se trata no início do texto.

A expulsão do jardim costuma ser apresentada como sendo um castigo. De fato o é na medida em que é conseqüência da transgressão humana. Mas é um castigo necessário! Pois somente através da transgressão pode nascer o espaço para a autonomia e a liberdade humanas. Não pode haver o discernimento em autonomia e em liberdade, elementos constitutivos do ser humano, sem haver a transgressão. Transgressão é o gradual corte do cordão umbilical, necessário a todo desenvolvimento humano sadio!

O texto mítico de Gênesis 3, apesar de apresentar o enredo em tonalidades negativas, é, pois, um texto que guarda uma ambigüidade necessária. Ao falar negativamente da desobediência e da transgressão dos humanos em relação ao Criador, simultaneamente apresenta esse passo, isto é, a transgressão, como necessário, para que o ser humano se constitua como ser livre e autônomo.

Esses são alguns apontamentos para uma tentativa de ler este complicado texto de Gênesis 3. Poderia ainda agregar a reflexão de que com este texto podemos estar, no desenvolvimento da história da religião de Israel, num momento em que começa haver um dualismo teológico. A serpente é utilizada para simbolizar tudo o que possa significar concorrência ao Deus Iahveh. Entendo que o texto de Gênesis 3 deve ter surgido numa época tardia da história de Israel, provavelmente no período do pós-exílio quando a fé monoteísta chega ao ponto máximo de suas formulações doutrinárias. Quem formulou o texto viu a concorrência a Iahveh como negativa, mas não deixa de reconhecer também a sua necessidade.

O texto pode também ter influências da experiência de grupos israelitas na Babilônia. Assim, por exemplo, na Babilônia, dentro do sistema religioso do zoroastrismo, isto é de religiões astrais, a serpente é um elemento simbólico negativo ligado à terra. Onde se valoriza os astros, os elementos ligados à terra tendem a ser negativizados. Isso pode ter sido influência babilônica ou persa na formulação deste texto hebraico. Mas também a indicação da expulsão do jardim pode remeter à experiência do final do exílio. Por causa da gradativa adaptação religiosa de hebreus no mundo babilônico, estes devem ser expulsos deste jardim para cultivar a terra de que foram tomados, isto é, a terra de Israel.

Gênesis 3 é um texto muito rico. Quantas percepções teológicas já se montaram a partir de seus conteúdos! A riqueza do texto é justamente a sua multiplicidade de sentidos. A nós cabe ler o texto com criatividade dentro do processo de releitura. Aqui quisemos destacar a dimensão da ambigüidade do texto em relação à transgressão como elemento necessário para que a pessoa possa se constituir em autonomia e liberdade.

 

[Publicado originalmente em: REIMER, Haroldo; CEBI-GO. Gênesis. Casa comum: espaço de vida, cuidado e felicidade. São Leopoldo: Cebi, 2007, p. 25-29]