CONVIVER NA CASA COMUM
Haroldo Reimer
Gênesis 2 é uma continuação de Gênesis 1. Isso é uma afirmação óbvia! Mas também é verdade que Gênesis 2 constitui uma correção ou talvez uma complementação ao anterior. Por isso, muitas vezes se fala em “segundo relato da criação”.
Tradicionalmente afirma-se que Gênesis 2 é um texto mais antigo do que Gênesis 1. Alguns até dizem que seria lá dos tempos iniciais da monarquia em Israel, talvez no século X a.C. Diz-se mais: que a perspectiva é outra. Em Gênesis 1, o olhar é feito a partir da realidade de vida no exílio na Babilônia; no capítulo 2, o olhar é a partir da realidade de vida no mundo agrário da Palestina. O que foi formulado neste texto reflete e projeta muito mais a proximidade das pessoas com a dimensão da vida na roça nas terras de Israel.
Essa proximidade já está indicada no fato de que a criação que aqui se descreve é a constituição de um “jardim”. Na verdade, não é só um jardim, mas muito mais uma horta, uma roça, um sítio, enfim, um local de vida e trabalho. Isso aliás é o que se expressa com o termo hebraico gan, normalmente traduzido por “jardim”.
Diferente do que em Gênesis 1, aqui em Gênesis 2 água é o elemento necessário para possibilitar o espaço de vida e trabalho. A chuva é claramente atribuída a Deus, como bem se afirma no v. 4: “Porque Deus ainda não fizera chover sobre a terra”. Na realidade da Palestina, pouca chuva é normal! Por isso o texto fala de que “neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo” (v. 5). Em contexto de escassez de água, como é o caso da Palestina, água é elemento essencial para possibilitar vida!
Deste solo árido umedecido por água é feito o ser humano. Esta narrativa, também construída em linguagem mítica, expressa que o ser humano (hebraico: adam) é feito do “pó da terra”. O termo utilizado para “terra” é adamah, que não é argila, como indica a Bíblia de Jerusalém, mas é mais precisamente o solo fértil. Trata-se do húmus, ou como se diz na linguagem dos goianos: “a terra de cultura”. Assim, aplica-se muito bem o trocadilho de que o humanus foi feito do humus. Em hebraico o trocadilho também dá certo: o adam (ser humano em sentido genérico) é feito da adamah. A terminologia hebraica ainda conserva uma lembrança de que o ser humano é feito da mãe-terra e com esta mãe-terra está indissoluvelmente ligada. Isso parece ser sina de trabalhador da terra, de lavrador, de colono, de roceiro! O ser humano compartilha o seu destino e a sua origem com toda sorte de plantas e árvores existentes neste jardim, que é o espaço comum de vida e trabalho. Mas é uma sina que deve ser redescoberta nos tempos atuais. A ruptura com a mãe-terra gera todo tipo de doenças!
Da ligação intrínseca do ser humano com a terra deriva também o seu “mandato divino” como é expresso em Gênesis 2,15: “Deus tomou o adam e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar”. Aqui muda a linguagem. Não é mais a linguagem de poder e de dominação como em Gênesis 1,28, mas é a linguagem do cuidado. É como se a essência deste adam, deste ser moldado a partir da terra fértil, consistisse em revelar em suas ações no cotidiano a sua dimensão mais profunda: ser um ser de cuidado!
O que o texto bíblico, em sua linguagem mítica instauradora de sentido afirma, não é nada idílico. Não se trata de esboçar uma relação totalmente harmoniosa com a natureza como é proposta por alguns grupos ecologistas mais radicais ou utópicos. O que os verbos utilizados indicam traz em si uma dimensão conflitiva.
Primeiramente, o verbo hebraico para “cultivar” é, em si, da mesma raiz verbal da qual se formam palavras como “trabalho”, “servo” “servidão”. Cultivar é em si uma ação de trabalho. Com o uso deste verbo se expressa tanto a necessidade quanto a dureza da tarefa do trabalho. Na perspectiva da linguagem mítica desse texto, o ser humano deve trabalhar, deve interferir. Assim, o termo “cultivar” denota interferência do ser humano no seu ambiente como um passo necessário para transformar o ambiente natural em mundo cultural. No alcance da semântica do texto original, se expressa aí a vida e a atividade do camponês israelita ou palestino que precisa trabalhar arduamente para transformar seu sítio ou sua roça em espaço que ofereça condições de sobrevivência. Deve-se notar que, na perspectiva do texto, esse “cultivar” não é exploração predatória do ambiente natural, pois isso tiraria as condições de sobrevivência em espaço reduzido. Aqui se pode projetar a idéia atual de “manejo”, o que implica experiência e sabedoria, sem destruição massiva do ambiente.
Além de cultivar, isto é, interferir no ambiente natural, este adam tem a incumbência de “guardar” o seu ambiente natural. O verbo hebraico shamar, aqui utilizado, expressa função de vigilância. Em um salmo se afirma que Iahveh é o guarda de Israel, que não dorme nem cochila (Sl 121). No hebraico moderno, um termo derivado da mesma raiz designa o vigia noturno e também a polícia. Por aí já vamos percebendo que junto com a interferência necessária vem a tarefa do cuidado e da vigilância. Talvez se deva aqui pensar em categorias contemporâneas como a tarefa “ecológica” do ser humano. Isto significa buscar administrar o ambiente natural de tal forma que os ecossistemas naturais sejam mantidos com capacidade de auto-reprodução.
Dentro da lógica de manejo sábio do ambiente de vida está também a adequada relação de parceria e igualdade entre homens e mulheres. A adequada relação entre o princípio masculino e o feminino é parte integrante da sabedoria ecológica. Afinal, homem e mulher são afirmados miticamente como uma só carne; na perspectiva da fala deste ser humano mítico originário, a mulher é “osso dos meus ossos, carne da minha carne” (Gn 2,23). Embora haja diferenças culturais nas tarefas atribuídas ao homem ou à mulher, ambos, o homem e a mulher, estão em igualdade, são idôneos uma perante o outro, um perante a outra. É importante não perder isso de visto!
[Publicado originalmente em: REIMER, Haroldo; CEBI-GO. Gênesis. Casa comum: espaço de vida, cuidado e felicidade. São Leopoldo: Cebi, 2007, p. 18-20]