TESTEMUNHO SOBRE AS ORIGENS  

Haroldo Reimer

 

As primeiras palavras da primeira página da Bíblia constituem um verdadeiro prólogo para o todo dessa fascinante obra das nossas Escrituras Sagradas. O que aqui se testemunha é a afirmação de fé básica de que Javé, o Deus de Israel, é o Deus Criador de céus e de terra, e “de tudo o que neles há” (Salmo 24,1). Aqui há uma condensação de fé desde a perspectiva de Israel.

O relato de Gênesis 1 abre toda a Bíblia. Encaminha para o que vem depois. Dá um sentido ao que se segue. Fundamental é a afirmação que brota da fé de Israel: que o mundo que existe e se experimenta como criação é obra de Deus.

A linguagem do texto é fundamentalmente mítica ou mitológica. Isso não significa de modo algum que a “verdade” das Escrituras seja diminuída. Linguagem mítica é uma forma de comunicação das “verdades” fundamentais em praticamente todas as religiões. A religião de Israel participa dessa forma da comunicação de suas próprias verdades e reconhecimentos.

Linguagem mítica é uma forma de comunicação que utiliza elementos ligados à experiência profunda do ser humano. É o que Jung chamava de “inconsciente coletivo” ou “arquétipos”. Os arquétipos, que são condensações de experiências coletivas, fluem para dentro dos textos míticos. Facilitam, assim, a assimilação pelos ouvintes ou leitores e já encontram nestes a predisposição para a aceitação, a imitação e o seguimento dos conteúdos fundamentais projetados nos textos míticos.

Textos míticos ou religiosos, assim como outros textos, têm um lugar e um momento de origem. São “históricos” porque uma pessoa ou um grupo um dia colocou as palavras em ordem para transmitir determinado sentido e provocar determinadas práticas. A origem do texto de Gênesis 1 costuma ser datada no chamado “período exílico”, isto é, no tempo em que uma parte do povo de Israel ou Judá teve que viver como deportadas na Babilônia. Isso nos remete para a primeira metade do século VI a.C., mais precisamente, entre os anos de 587 a 538 a .C.

Na Babilônia, os deportados estavam confrontados com outras afirmações de fé igualmente míticas. Um famoso mito chamado de enuma elish, assim denominado por causa das primeiras palavras do relato, afirmava que um outro Deus, chamado Marduque, seria o criador do universo. Os israelitas certamente conheciam este mito e utilizaram partes dele para expressar o seu credo de fé, agregando elementos de sua própria tradição. O texto que surgiu no exílio foi posteriormente utilizado como introdução geral ao conjunto de texto que é o Pentateuco, abrindo, assim, toda a Sagrada Escritura.

Sabidamente, o texto de Gênesis 1,1 até 2,4 constitui o chamado “primeiro relato da criação”. Este texto já está estruturado dentro de um esquema que prescreve uma ordem do tempo. O relato está construído dentro duma seqüência de sete dias, mais precisamente seis dias de trabalho e um sétimo dia reservado para o descanso. Essa estrutura do relato das origens já sugere um conteúdo importante: como ouvintes ou leitores do texto, os israelitas devem procurar imitar o Criador, mantendo um ritmo de seis dias de trabalho e um dia de descanso. Se o Criador assim o fez quanto mais as criaturas conscientes devem fazê-lo!

O relato de Gênesis 1 mostra que “criação” é sobretudo uma tarefa de “ordenação”, de colocar em ordem, de fazer surgir cultura. O ambiente original, pressuposto no texto, é um ambiente de águas caóticas. No ato criador, a divindade criadora ordena o caos e faz surgir um espaço ordenado. Este espaço é o ambiente em que as pessoas podem se estabelecer culturalmente, fazendo brotar vilas, cidades, reinos e até impérios, enfim, fazendo surgir a civilização e a cultura.

Um outro conteúdo importante transmitido ao longo da estrutura do texto é a afirmação de que as outras criaturas têm uma “dignidade criatural” própria, independente dos seres humanos. Isso sabidamente é afirmado no texto através de uma expressão que se repete várias vezes. A partir do terceiro dia da criação, o autor do relato, após descrever a obra criadora do dia, anota: “E viu que era bom!”. Isso quer dizer que os outros elementos da criação têm um valor próprio diante do Criador.

Com a dignidade própria assegurada aos outros elementos da criação, o ser humano é pensado e afirmado como um elemento integrado na criação. É verdade que lhe é assegurado um elemento especial, que é o de ser imagem e semelhança do Criador (Gênesis 1,26-31). Como tal, o ser humano recebe um mandato, afirmado no texto com palavras muito pesadas como: “dominar a terra e subjugar os animais” (Gênesis 1,28). Estes verbos “dominar” e “sujeitar” são termos tomados da linguagem dos reis e dominadores. Tiveram a sua importância na época, mas hoje, diante das crises ambientais provocadas pela intensa interferência dos seres humanos no ambiente, essa linguagem precisa ser traduzida para conceitos que expressam muito mais a dimensão do cuidado com o ambiente. Hoje é necessário (re)descobrir muito mais a dimensão de que nós, seres humanos, temos a incumbência de ser mordomos dessa grande casa da criação.

O trabalho faz parte da atividade humana. O trabalho dignifica a pessoa, assim se diz tradicionalmente. Mas o trabalho não pode se tornar um fim em si mesmo, senão vira escravidão. Atividade de trabalho deve ser, sempre, interrompida por tempos de pausa. A pausa é necessária, é salutar, refaz o corpo e o espírito. A pausa possibilita o sonho! Dentro de um código de linguagem mítica, o texto afirma que o Criador descansou no sétimo dia e o santificou. Aqui não se santifica um lugar, mas um tempo! É um tempo que antecipa o grande descanso de toda a criação. No saber e poder descansar reside um elemento da dignidade humana. Não pode ser verdade máxima que só o trabalho dignifica; também o lazer, o não-fazer-nada, o descanso são elementos que outorgam dignidade à pessoa. Devem ser assegurados a todos que trabalham.

 

[Publicado originalmente em: REIMER, Haroldo; CEBI-GO. Gênesis. Casa comum: espaço de vida, cuidado e felicidade. São Leopoldo: Cebi, 2007, p. 12-14]