A VERDADE
A porta da Verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia verdade de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque cada metade trazia o perfil da meia verdade,
E a sua metade voltava igualmente com o meio perfil,
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela,
Nenhuma das duas partes era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
(Carlos Drummond de Andrade)
POEMA MÍSTICO
Segura o manto de seus favores,
pois ele logo desaparecerá.
Se o retesa como a um arco,
ele escapará com flecha.
Vê quantas formas ele assume,
quantos truques ele inventa.
Se está presente em forma,
então há de sumir pela alma.
Se o procuras no alto do céu,
ele brilha como a lua no lago;
Entras na água para capturá-lo
e de novo ele foge para o céu.
Se o procuras no espaço vazio,
lá está, no lugar de sempre;
Caminhas para este lugar
(Jalal ud-Din Rumi - Poemas místicos)