Inefável é algo que não pode ser atingido em sua inteireza; algo que não pode ser captado integralmente na consciência e, portanto, não pode ser representado em formas específicas como expressão de totalidade. O inefável se percebe no claro-escuro. Por isso está relacionado com fragmentariedade.
A inefabilidade deve(ria) ser característica de todo falar de Deus. Pois Deus, na medida de sua existência, é sempre transcendente a toda forma e conceito. As palavras, os gestos, as narrativas e as doutrinas nada mais são, no fundo, do que aproximações. São percepções a caminho.
Na tradição dos antigos hebreus, deu-se passos rumo à afirmação da inefabilidade de Deus. Estes passos se tornaram caminho, sendo por sua vez marcante para muitos desenvolvimentos posteriores. Amalgava-se a tradição da adoração exclusiva a um só Deus, indo do politeísmo pela monolatria ao monoteísmo. Experiências de outra gente foram aí aproveitadas.
O deus dos hebreus é inefável. Também é sem forma. O aniconismo ou a ausência de imagens no serviço a deus passou a ser marca distintiva deste grupo étnico-cultural. O impulso anicônico da fé hebraica tem sua expressão forte no segundo mandamento bíblico: não fazer imagens do transcendente.
A recepção destes impulsos foi diferenciada. Diluiu-se no cristianismo medieval no processo da incorporação de novas tradições e na necessidade da presentificação do divino em objetos. A tradição maometana seguiu pelo caminho hebraico, semítico. A reforma protestante retomou de forma diferenciada o impulso anicônico.
O presente livro trata de passos, momentos e caminhos do processo da constituição do monoteísmo hebraico. Os cinco estudos aqui apresentados são recortes que permitem vislumbrar, fragmentariamente, o todo do processo.